CONFERÊNCIA ETHOS

Relembrando: Mobilidade Urbana e Direitos Humanos na Conferência Ethos em SP


17/01/2018

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Painéis destacaram o papel das empresas nestas agendas

Em 2017, o Instituto Ethos realizou pela primeira vez um total de três Conferências Ethos 360º. Em São Paulo, cujo a iniciativa já é realizada desde 1.999, a abrangência dos temas manteve a temática sempre com foco em ampliar o diálogo em torno das agendas abarcadas pelo Instituto Ethos.

Neste início de ano retomamos alguns dos debates a cerca de:

Mobilidade Urbana

Durante a mesa: Mobilidade corporativa: soluções para promover mobilidade sustentável nas empresas, a imprevisibilidade de quanto tempo uma pessoa  gasta  no deslocamento para diferentes locais que constituem seu roteiro no dia a dia, quer seja para a escola, trabalho, demais atividades pessoais e profissionais, foram objetos que reuniram Guillermo Petzhold, especialista de mobilidade urbana no WRI Brasil Cidades Sustentáveis; Léssia Raquel Ivanechtchuk, gestora de frota e mobilidade urbana da Basf, Edmar Cioletti, superintendente do Banco Santander; Roberta C. Ferreira, especialista em inovação e produtos sustentáveis na ALD Automotive, e a moderadora Flavia Resende, coordenadora de projetos em práticas empresariais e políticas públicas do Instituto Ethos.

Presente em vários países, inclusive de norte a sul do Brasil, a organização sem fins lucrativos, WRI Brasil Cidades Sustentáveis enfatiza que a mobilidade não é um problema que diz respeito somente ao poder público, mas também às empresas e demais organismos que reúnam pessoas. “As empresas podem estimular uma mudança de hábito, através da mobilidade corporativa”, apontou Petzhold.

Durante sua fala, o especialista de mobilidade urbana no WRI Brasil Cidades Sustentáveis apresentou cases de sucesso, como os APP da Carona e o APP da Bicicleta que, além de atenuar o problema da mobilidade, proporcionam outros benefícios e até são responsáveis pela redução do índice de acidentes.

A exposição de Léssia Raquel, da Basf, compreendeu as várias ações que a empresa vem executando, à exemplo da Carona Solidária, implantado há mais de 10 anos. Também foram apresentadas as atividades internas desenvolvidas pela companhia, como o Carro Sharing, um sistema de compartilhamento do veículo para uso de trabalho. Todas essas são soluções que favorecem o dia a dia das pessoas que moram em São Paulo, cidade que registra o alto percentual de 70% de carros trafegando no espaço público com apenas o condutor.

Também o Santander empreende várias ações (bicicletário, infraestrutura para bicicletário, Carona Amiga, vans fretadas, academia de ginástica, entre outras), cujos resultados são rigorosamente medidos. “Chegamos a tirar aproximadamente dois mil carros da rua no horário de pico e também reduzimos de dois mil para 600 carros a fila de espera para o estacionamento do banco”, discorreu Cioletti. O banco também recorre ao uso da tecnologia com adoção de aplicativos, de modo a facilitar o deslocamento de seus colaboradores.

Roberta, da ALD Automotive, empresa que atua na gestão de frotas, expôs números que impactam ainda mais a questão da mobilidade: “São Paulo tem uma frota de oito milhões de veículos automotores, sendo 70% constituída de carros. E a ALD coloca diariamente cerca de 23 mil carros nas ruas da cidade. Como oferecer soluções de mobilidade aos nossos clientes e contribuir para um trânsito saudável?”, questionou a especialista em inovação e produtos sustentáveis. Segundo ela, o carro elétrico não é ainda uma opção, devido ao tempo de espera oferecido pelas concessionárias e o custo elevado do veículo.

 

Direitos Humanos

Vários debates transcorreram abordando a temática dos direitos humanos, tanto a questão racial, como a causa LGBTQIA expuseram o quanto a empresas ainda devem caminhar rumo a inclusão.

O painel: Enfrentamento às desigualdades raciais no mercado de trabalho contou com Carolina Gomes, coordenadora do pilar raça da Rede pela Diversidade da Avon; Theo van der Loo, presidente da Bayer Brasil e Daniel Teixeira, diretor de projetos do CEERT.

Para Carolina as empresas precisam “começar a enfrentar e falar do racismo abertamente”, pois ela observa que apesar dos negros serem a maioria da população brasileira, de acordo com o IBGE, “este cenário com certeza não é representado nas empresas”.

“Se fala muito na entrada, mas precisamos avançar na questão da permanência dos negros nas empresas, para tanto as companhias precisam de mecanismos”, pontuou a coordenadora da Rede pela Diversidade da Avon

o presidente da Bayer Brasil chamou os CEO’s a se envolverem com a questão. “Durante as reuniões muitos concordam com tudo, mas durante o coffe break vêm me perguntar como implementar em suas empresas”, revelou van der Loo.

“Não aprendemos sobre isso na graduação. Mas atualmente é sabido que é preciso empreender no social. Os negros não querem favores, mas sim oportunidades. O aumento de negros na empresa não deve ocorrer apenas nas fábricas”, concluiu.

Daniel Teixeira, diretor do CEERT, concorda com o presidente da Bayer: “Sem o envolvimento da alta liderança das empresas temos pouquíssimas chances de conquistas” e avaliou ainda que “não é apenas a inserção, é preciso que os grupos tenham voz dentro das companhias. Todos estudos comprovam que a diversidade auxilia as empresas. Temos que derrubar mitos como o da meritocracia”, destacou. Dirce Gomes, que integra o projeto BayAfro, na Bayer, sintetizou as falas expostas durante o painel com a seguinte colocação: “Sem a inclusão você é convidado para festa, mas ninguém te chama para dançar”.

 

Ainda na temática social, a mesa: A redução das desigualdades e as empresas, contou com Rafael Georges, coordenador de Campanhas da Oxfam e Américo Sampaio, gestor de projetos da Rede Nossa São Paulo.

Georges falou sobre o relatório: A distância que nos une –Um retrato das desigualdades brasileiras, no qual esmiuçou sobre a redução do desemprego, a formalização do trabalho e como a concomitante entrada da mulher no mercado de trabalho contribuíram para a diminuição das desigualdades. “53% das mulheres estão se ofertando ao mercado de trabalho, 47% têm nível de escolaridade maior que o homem e mesmo assim estão fora do mercado. Empresas que rompem essa barreira são as que promovem a inclusão no mercado de trabalho

Às mulheres são impostas tarefas como cuidar dos filhos, dos entes mais velhos da família. As empresas têm como apoiar uma reversão nesta cultura apoiando por exemplo a ampliação da licença paternidade. A Oxfam defende a licença parental com período igual para pais e mães, pois quanto mais você joga o homem para a paternidade, mais você diminui a diferença entre os gêneros”, destacou.

Américo abordou o “desigualtômetro” que mensura a desigualdade entre as regiões centrais e a periferia das cidades, do qual trouxe para o debate os seguintes dados:

– 1/3 da cidade de SP não tem acesso a livros adultos em equipamentos públicos;

– A desigualdade quanto a livros para adultos é de 6 mil vezes da região do distrito da Sé em relação à periferia da cidade;

– 2/3 da cidade de SP não tem por perto Casas de Cultura;

– Regiões onde há teatros e acesso à cultura não têm favelas, o oposto acontece nas periferias, por exemplo, a periferia de SP não tem acesso a teatros;

– A gravidez na adolescência no Jd. Paulista é de 1%, enquanto em Perus é de 20%.

“É inaceitável vivermos numa cidade que tem este nível de desigualdade. Projetos devem ser implementados nas franjas da cidade: extremo sul, curva da zona leste e extremo norte, isso é inegociável”, destacou o representante da Rede Nossa São Paulo, que ainda completou: “Há um padrão de desigualdade que não é por falta de planejamento, mas sim porque a cidade foi pensada desta forma. Foi pensada em ter privilégios para alguns e sofrimento para outros, que se encontram nas periferias”.

No que tange a causa LGBTQIA, a Shell facilitou o painel: respeito e inclusão LGBT nas empresas: por uma vivência profissional mais empática e inovadora, no qual participaram: Adriana Ferreira, líder de Diversidade & Inclusão na IBM América Latina; Edson Lopes – gerente de promoções e eventos do Instituto Ethos; Luiz Henrique Oliveira, analista regulatório na Shell Brasil e Rafhael Romero Bentos, advogado no escritório Mattos Filho Advogados.

A primeira a se apresentar, Adriana, contou a própria história de vida ao revelar a orientação sexual no ambiente de trabalho. “Aos 38 anos, estagiária e lésbica em me tremi toda”, relembrou e evidenciou que as empresas precisam enfrentar todo o processo: ”Uma cultura de inclusão não acontece de uma hora para outra”, acredita.

Resgatando a questão da chamada “cura gay” o gerente de promoções e eventos do Ethos identificou ser este um momento singular para o país. “As empresas são hoje colocadas numa posição de afirmar não só internamente, mas também externamente o apoio a causa LGBT”, declarou Lopes.

Sob o ponto de vista do empregador, o representante da Shell lançou luz sobre a o rendimento do funcionário após assumir a identidade de gênero. “Se você esconde sua orientação sexual vai querer ficar o mínimo possível na empresa”, expôs Luiz.

Já o advogado da Mattos Filho Advogados, que lidera o grupo LGBT da empresa, avaliou que “o mais importante para começar o movimento LGBT na empresa foi o apoio da alta liderança”. Para Rafhael, esse é um aspecto quanto a “importância das empresas assumirem e apoiarem esta causa”.

 

Foto:  Clóvis Fabiano, Kleber Marques e Ivan Almeida

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